
“Água acaba?”
segunda-feira, 28 de junho de 2010
por Ricardo Gustav Neuding
Mudanças climáticas globais estão hoje no foco das preocupações. Problema levantado inicialmente há poucas décadas, sua percepção foi gradualmente de expandindo, de uma consideração científica para uma preocupação política internacional. Resulta do modo de vida moderno, adotado pela humanidade a partir da revolução industrial. As tecnologias predominantemente adotadas para gerar o que tem sido valorizado como benefícios para as pessoas, como a disponibilidade de energia abundante, o conforto pessoal, o transporte, a fartura de bens de consumo, são, em sua maior parte, baseadas na queima de combustíveis de origem fóssil. É o modo de vida moderno. O conceito positivista do progresso, tendo o crescimento como valor básico, gera cifras que se multiplicam exponencialmente ao longo dos anos. Tudo baseado, em grande parte, na queima de petróleo, carvão mineral e gás. A humanidade vem, neste processo, produzindo enormes quantidades de resíduo, na forma de gases que geram o efeito estufa. Um lixo gasoso, que por ser invisível, demorou para ser percebido. Seu acúmulo na atmosfera intensifica o efeito estufa, que de um importante elemento regulador das condições climáticas da terra, passa a ser uma ameaça, por excesso.
Pela primeira vez a humanidade enfrenta uma questão realmente, fisicamente, global. Uma vez posta na arena política, tem gerado entendimentos e desentendimentos. Discute-se como reduzir a geração do lixo gasoso. Nem todos agem, empurram a responsabilidade para outros. No entanto várias ações efetivas, de grande valor neste cenário, são empreendidas ao redor do mundo. Precisa que sejam mais.
A recente publicação do estudo Economia da Mudança do Clima no Brasil: Custos e Oportunidades[1] mostra para o Brasil o que já antes havia sido apontado para o mundo em 2006 pelo britânico Relatório Stern[2], que o inspirou: uma das principais conseqüências das mudanças climáticas é a alteração na disponibilidade da água, e suas conseqüências sobre a saúde, a produção de alimentos e a economia como um todo.
Sabemos que água existe em grande quantidade na terra, e é base da vida nela. Flui através de um grande e complexo sistema natural, ao qual associamos atavicamente um conceito de estabilidade. Muitos dos grandes agrupamentos urbanos formaram-se e cresceram às margens de rios importantes, percebidos como corpos d’água perenes, ou à beira do mar. Os regimes de chuvas, associados às estações do ano, ditaram a localização das diferentes zonas agrícolas no mundo, nas quais se fixaram populações e sistemas produtivos. Há ciclos, variações, dentro de limites que a observação histórica permite ver. Previsões climáticas são a base para o planejamento da produção de alimentos ao redor do mundo, desde sempre. Os períodos de recorrência de chuvas são, por seu lado, usados sistematicamente no dimensionamento de obras civis, técnica comum na engenharia. Princípios tradicionais de direito, como a outorga de cursos d’água e o direito à passagem de águas para irrigação e pluviais, remontam à era romana. Proteção de mananciais e corpos d’água é há tempo praticada por governos e agências ambientais. Os órgãos de saneamento básico, distribuidores de água nas cidades, ao cobrarem pelos seus serviços, criam um processo de valoração da água perante seus consumidores. Tudo, porém, dentro de um ambiente de normalidade.
No entanto, avizinham-se mudanças decorrentes de um nível de efeito estufa nunca antes ocorrido na presença da civilização humana, tal com a concebemos agora. Embora a água exista, em bruto, em quantidade estável, seu fluxo passa a se alterar para muito além dos ciclos antes vistos como naturais. Espera-se, por exemplo, que vários rios, cujos mananciais têm origem em cordilheiras geladas, tenham suas vazões drasticamente reduzidas pelo seu degelo. Isto já está identificado, por exemplo, em elação à cordilheira do Himalaia, que dá origem a bacias hidrográficas nas quais vive mais de um bilhão de pessoas, principalmente na Índia e China. Certamente serão afetadas gravemente, com as conseqüências sócio-políticas que podemos facilmente imaginar. Regiões agrícolas tradicionais terão forte redução de produtividade, enquanto outras ganharão força, novamente impactando as relações sócio-políticas internacionais, por vezes de forma grave.
No Brasil, algumas perspectivas indicadas pelo estudo acima citado (pág 7):
No Nordeste, as chuvas tenderiam a diminuir 2-2,5 mm/dia até 2100, causando perdas agrícolas em todos os estados da região. O déficit hídrico reduziria em 25% a capacidade de pastoreio de bovinos de corte, favorecendo assim um retrocesso à pecuária de baixo rendimento.
O declínio de precipitação afetaria a vazão de rios em bacias do Nordeste, importantes para geração de energia, como a do Parnaíba e a do Atlântico Leste, com redução de vazões de até 90% entre 2070 e 2100.
Haveria perdas expressivas para a agricultura em todos os estados, com exceção dos mais frios no Sul-Sudeste, que passariam a ter temperaturas mais amenas.
e
Energia.
Perda de confiabilidade no sistema de geração de energia hidrelétrica, com redução de 31,5% a 29,3% da energia firme. Os impactos mais pronunciados ocorreriam nas regiões Norte e Nordeste. No Sul e no Sudeste os impactos se mostrariam mínimos ou positivos, mas neste caso não compensariam as perdas do Norte e do Nordeste.
Agropecuária.
Com exceção da cana-de-açúcar, todas as culturas sofreriam redução das áreas com baixo risco de produção, em especial soja (-34% a -30%), milho (-15%) e café (-17% a -18%). A produtividade cairia em particular nas culturas de subsistência no Nordeste.
Água, este recurso abundante, em muitos lugares visto como sem limites, passa a não ser mais assim.
Quanto consumimos? O quanto dependemos desta disponibilidade? O quanto podemos nos ajustar para enfrentar uma redução? Podemos consumir menos? Quanto? Quando? A que teremos que renunciar? A que custo?
Numa perspectiva empresarial, como dar respostas objetivas, bem conceituadas, bem quantificadas, que possam suportar ações de planejamento consistentes? Qual a métrica adequada? Como pode ser feita uma boa avaliação de riscos estratégicos relacionados a este tema? Como abordar a questão de forma que seja reconhecida pelos diferentes interlocutores e partes interessadas?
As respostas, agora, estão vindo. O conceito de pegada, footprint em inglês, com o arcabouço conceitual que o acompanha, vem dar bom suporte metodológico ao tema. Destaque deve ser dado ao Global Water Tool[3] do WBCSD – World Business Council for Sustainable Development e também à organização internacional Water Footprint Netwotk[4], que provê uma orientação interessante de abordagem prática, também no ambiente empresarial.
A ATA, que vem se dedicando há alguns anos ao tema das emissões de gases de efeito estufa, passa a aplicar suas competências também na área do uso da água, principalmente na perspectiva empresarial, apoiando a elaboração de inventários, avaliações de impacto e o desenvolvimento das estratégias de gestão correspondentes.
[1] editado por Sergio Margulis e Carolina Burle Schmidt Dubeux e coordenação geral de Jacques Marcovitch – São Paulo: IBEP Gráfica, 2010
[2] http://webarchive.nationalarchives.gov.uk/+/http:/www.hm-treasury.gov.uk/sternreview_index.htm
[3] www.wbcsd.org/web/watertool.htm
[4] http://www.waterfootprint.org/









