
“Emissões de Carbono na Construção Civil”
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Washington Novaes, em artigo publicado no Estadão no último dia 15 de Maio, nos chama atenção já pelo título: “O Brasil avança na área do clima?”. Citando a New Cientist, Sir Nicholas Stern, o instituto Oxfam, e outras fontes, inclusive o senador José Sarney, mais uma vez o articulista nos mostra uma realidade sombria: pessoas, no Brasil e fora dele, sofrem as conseqüências das mudanças climáticas. A ameaça está cedendo lugar à realidade: o problema chegou. Estados de emergência climática no nordeste e no sul do Brasil expõem milhares de pessoas ao sofrimento de extremos: inundações e seca. No mundo afora não está sendo diferente (200.000 pessoas mortes em 2008) . Não se trata de crer ou não em uma tese científica: é só se ligar a TV e assistir ao noticiário na noite. E sabemos que isto é só o início.
No Brasil, a consciência sobre a questão e as ações correspondentes ocupam o seu lugar. É inegável que as coisas estão se movendo por aqui, mas poderia ser bem melhor, principalmente quando Brasília está envolvida. Em compesação, no setor privado os esforços vão se avolumando, felizmente. Várias companhias trabalham no sentido de elaborar seus inventários de gases de feito estufa, procurando medir suas “pegadas de Carbono” e verificar o que podem fazer para reduzi-las.
NA CONSTRUÇÃO CIVIL NÃO É DIFERENTE
Um fato importante deve ser posto à vista: a execução de obras civis emite muito, em quantidade de gases de efeito estufa. Se verificarmos a distribuição das emissões brasileiras, conforme inventário nacional infelizmente ainda não atualizado (o mais recente é com base em 1994, pasmem, mas há um novo a caminho prometido para este ano…), veremos que a produção de cimento e aço são os maiores emissores industriais. Transportes também estão lá, em posição de destaque no ranking das emissões.
Ao inventariarmos uma construção, seja predial, seja de infra-estrutura, com estamos fazendo hoje na ATA para várias construtoras e incorporadoras, verificamos que a maior parte das emissões de Carbono estão nestes elos da cadeia da construção: cimento, aço e transporte.
São emissões que se concentram no tempo, naqueles 2 ou 3 anos que compõem o prazo de execução de uma obra, o que torna a questão bastante grave.
• Sabemos que a produção do clínquer, material que é base da produção do cimento Portland, emite gases de efeito estufa em grandes quantidades, por dois efeitos: as altíssimas temperaturas necessárias para a calcinação nos fornos de clínquer, em geral obtidas pela queima de combustíveis fósseis, e as emissões estequiométricas da mesma calcinação, que libera o carbono antes contido no calcário, sob a forma de CO2 emitido para a atmosfera.
• Com a produção de ferro e aço não é diferente. Altas temperaturas nos altos-fornos, obtidas a partir de combustíveis fósseis, somadas à liberação para atmosfera do carbono utilizado como redutor, sob a forma de CO2.
• Não menos significativo, o grande consumo de diesel no transporte de todos os materiais empregados na obra, desde seu local de origem até o canteiro. Movimento de terra no local pode, também, ser alto emissor, principalmente em obras de infra-estrutura.
Uma vez concluída a construção, tem início sua utilização, entrando em outra fase de seu ciclo de vida. Para obras prediais, seja residenciais, seja de escritórios ou serviços, a principal fonte de emissões será certamente o consumo de energia. Há também as emissões decorrentes do tratamento de água e esgoto, do deslocamento de pessoal e outras menores. Ocorre que quanto ao consumo de energia há uma particularidade brasileira: nossa matriz de geração de eletricidade ainda é bastante limpa, com grande participação da energia hídrica. Assim, caso o país consiga manter esta boa característica, e deve fazer tudo para mantê-la, teremos que as emissões decorrentes do uso dos imóveis, ano a ano, é bastante baixa se comparada àquelas decorrentes da construção.
Tomando como exemplo cálculos recentemente elaborados pela ATA para um edifício de escritórios em São Paulo, temos que as emissões anuais de gases de efeito estufa da energia consumida no período de uso do imóvel (3,6 kgCO2e/m2) é muitíssimo inferior às emissões anuais ocorridas durante a construção (150,48 kgCO2e/m2). A prioridade é evidente. Mesmo se considerarmos o período de construção completo, no caso de 2 anos, e um período de uso de 30 anos, adotando a análise pelo ciclo de vida do produto, vemos que a prioridade permanece (108 kgCO2e/m2 para o uso e 301 kgCO2e/m2 para a construção). Para edificações de outros usos, como o residencial, por exemplo, esta proporção não se altera significativamente.
Fundamental, portanto, que o setor da construção civil faça seus cálculos. O Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa passa a ser uma ferramenta indispensável neste momento. Normas internacionais são aplicáveis a esta atividade, particularmente a ISO 14.064-1, desenvolvida espacialmente para Gases de Efeito Estufa. Da realização dos inventários surgirá, naturalmente, a identificação dos pontos críticos, das prioridades e das oportunidades de promover as redução das emissões.
Reside aí a grande contribuição que o setor pode dar para a redução das emissões globais.
A partir de inventários adequados é possível seguir para ações objetivas. Analisar as soluções de projeto, desde a definição do partido arquitetônico, até os projetos complementares e os métodos construtivos, à luz deste novo foco, certamente trará reduções significativas. A escolha de materiais e fornecedores por um processo seletivo que se baseie, entre critérios de preço e qualidade, também nas emissões de carbono na sua fabricação, é uma ferramenta poderosa.
A gradativa ampliação desta visão pela cadeia de valor da construção civil brasileira será elemento fundamental para que o setor se posicione na liderança de um processo globalmente emergencial.
Fato evidente é que os mercados, tanto de consumo quanto de capitais, pata não dizer a sociedade em geral, estão com seus olhares voltados cada vez mais para as soluções que sejam postas objetivamente sobre a mesa. Está aí um importante fator de diferenciação competitiva, a ser aproveitado por quem tiver a visão estratégica correta.
Ricardo Gustav Neuding
Maio/2009








