
“Um Momento de Convergência”
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Ricardo Gustav Neuding
Um momento extraordinário de convergência. Em meio à crescente preocupação mundial com as emissões da carbono, pondo em cheque o modelo de desenvolvimento adotado pela humanidade há pouco menos de 200 anos, surge uma crise financeira avassaladora, cuja real dimensão ainda não conhecemos.
A humanidade tem crescido com base no consumo de petróleo, carvão e gás, aplicados no transporte e na geração de energia elétrica e térmica. Uma família típica na maior parte dos países desenvolvidos tem a eletricidade que consome gerada em uma usina termoelétrica movida a carvão ou gás, tem sua casa aquecida no inverno por estes mesmos combustíveis, locomove-se em veículos movidos a petróleo. Não é diferente nas escolas e locais de trabalho ou lazer. O conforto térmico e locomotivo tem sido associado ao progresso, ao desenvolvimento social. O mesmo ocorre com o acesso ao consumo de bens e serviços. Uma espiral ascendente se formou assim ao longo do século XX, trazendo um imenso cabedal de conhecimento e tecnologia direcionados por este modelo. O próprio crescimento populacional tem se fundamentado aí. Basta ver que, quando Diesel criava seu motor e Edison sua lâmpada, no final do século XIX, tínhamos no planeta cerca de 1,6 bilhões de habitantes. Hoje passamos dos 6 bilhões. E, agora, estamos verificando que por este caminho esbarramos no limite: não podemos mais crescer tanto, ou desta maneira. Pior: não podíamos ter crescido tanto ou desta maneira. Assim que as mudanças climáticas estão aí, para cuidar disso: ou mudamos, ou a mãe natureza nos muda.
Mas, eis que surge a crise financeira, deflagrada pelo sub-prime norte-americano. Espalha-se como um rastilho por países e mercados, destruindo valores, em parte fictícios, criados pela excessiva alavancagem dos mercados de capitais. A recessão mundial se instala, os investimentos param. Não só as aplicações financeiras, mas também, e isto é grave, os investimentos reais, em ativos produtivos, industriais ou agrícolas. Governos ao redor do mundo têm acudido aportando reservas financeiras ao mercado, inclusive o brasileiro. Mas, reservas são finitas, e as receitas dos governos acabam limitadas pelos níveis de atividade econômica de cada país. Cai um, cai o outro…
Temos aí duas crises. Ambas se abatem sobre o mesmo sistema, o mesmo modelo. Vêm de direções aparentemente diferentes, têm tempos diferentes, mas convergem no seu objeto. Se as origens são outras, as soluções se entrelaçam.
A Sir Nicholas Stern, que nos brindou com sua recente presença em São Paulo, foi perguntado se a crise financeira afastaria a solução para as emissões de carbono, pois as agendas estão perpassadas por novas prioridades, opostas às anteriores. Importantes setores da indústria, principalmente européia, têm se manifestado assim. Respondeu Sir Stern que, ao contrário da primeira aparência, aí pode estar uma oportunidade. De fato, isto merece atenção.
A depressão parece que adiaria a questão das emissões, em seu volume. Talvez um pouco, bem pouco se olharmos a real necessidade. Com mais crescimento ou menos, continuamos e continuaremos a emitir carbono em enormes quantidades, pois nosso modelo ainda é assim. Temos é que mudá-lo.
É mais fácil intervir em um modelo que está de vento em popa, navegando a alta velocidade? Ou é mais fácil ajustá-lo no momento da parada? A interrupção de investimentos que estavam sendo feitos conforme os paradigmas vigentes, para atender à crescente pressão da demanda, não será boa oportunidade para uma reformulação? Certamente a capacidade de investimento de vários setores estará reduzida por algum tempo. Mas a capacidade de investimentos que resta, e alguma restará, ainda que com base em suporte governamental, pode mais facilmente ser direcionada a reformar esta base instalada, num ambiente de menor pressão de demanda.
Está aí a oportunidade. Com visão estratégica de empresas e governos, podemos agora nos voltar para criar as condições de sustentação de nossa economia no médio e longo prazo, reduzindo drasticamente sua intensidade de emissões de carbono.
A eleição de Obama vem trazer luz sobre este tema. A liderança perdida, ou nunca havida, dos Estados Unidos no tema das emissões de gases de efeito estufa poderá agora ser revertida. As duas crises se cruzam na mesa do novo presidente, está criada a oportunidade.








